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Provocação, ridicularização, gozação, desqualificação é apenas uma das muitas
formas em que o assédio no ambiente de trabalho se manifesta. Ele não ocorre de maneira clara e evidente, mas paradoxalmente o assediador que se julga dotado de poder superior ao assediado, se esconde covardemente em atitudes sutis e sorrateiras.

Como consequência, o maior combate que temos à disposição contra esse mal
que afeta todas as organizações é uma abordagem transparente e pragmática
sobre o assunto, munindo os profissionais que já sofreram, ou ainda, que estão
sofrendo assédio, com informação sobre o tema, possibilitando assim que
identifiquem o que de fato estão passando, pois pior do que sofrer assédio no ambiente de trabalho é nem sequer saber que está sofrendo com ele.

 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 42% dos brasileiros já sofreram assédio no ambiente de trabalho.

 

Já pela revista francesa Rebondir,especializada em questões de emprego, 33% dos trabalhadores ao longo do globo já sofreram assédio. E o problema atingiu indiscriminadamente todos os escalões: executivos (35%), supervisores (27%) e operários (32%).

Buscando compreender o fenômemo, suas origens, nuances e impactos queacarretam, ventilamos aqui o tema, identificando meios de preveni-lo e combatelo.

Não há pretensão em encerrar o assunto, mas ao mesmo tempo não nos
limitamos a estuda-lo apenas no âmbito jurídico ou mesmo psicológico, mas
também social.

 

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O assédio é um fenômeno multidimensional, ou seja, não existe apenas a
relação entre assediado e assediador, é também um problema de nível
organizacional, pois acontece dentro ou em decorrência do âmbito
organizacional.

 

Poder: a raiz de todo assédio no ambiente de trabalho

A relação de poder entre quem assedia e quem é assediado é a raiz de todo
assédio, aquele buscando dominar física e/ou psicologicamente este, por meio
de comportamento essencialmente manipulador persegue seu “alvo” com intuito
de destruir sua autoestima e, consequentemente, proporcionando a manutenção
deste poder em um ciclo vicioso, tanto para o assediador quanto para o
assediado.

Resgatamos aqui uma definição dada por Weber (1958) “poder é a possibilidade
de um homem ou uma certa quantidade de homens realizar sua própria vontade
em uma ação comum até mesmo contra a resistência de outros que participem
dessa ação”. Grifei propositalmente a palavra “resistência” para destacar que o poder não necessariamente é outorgado e aceito para ser exercido.

Talcott Parsons, sociólogo americano, defende que o poder não é o único modo
de obtenção da aquiescência do outro, mas ele pode ser “adquirido e mantido”
de diversas formas como as apresentadas abaixo:

Tomando o esquema apresentado acima e considerando que o assédio se
origina no uso de poder por parte do assediador, vemos que ele pode se
configurar em um modo “positivo”, tanto com promessas de promoções e
aumentos salariais, ou seja, com indicadores de “vantagens”.

Esse modo de exercício de poder se faz presente na realidade de muitas organizações, considerando que vivemos numa sociedade na qual predomina a competição generalizada e nas quais os valores sociais são reduzidos ao valor do mercado.

Já o modo positivo intencional se revela pela “influência” que o assediador
exerce sobre o assediado ao manipular sua percepção de performance,
atacando assim sutilmente a dignidade ou mesmo competência, fragilizando o
assediado a tal ponto que se sentirá culpado por estar sofrendo assédio.

Porém o modo mais clássico de exercício do poder se dá pela negatividade, com
ameaças (estas mais pontuais), com sugestões de que o assediado perderá o
emprego se não fizer sua vontade. Mas ainda, há a pressão moral, escopo deste
artigo.

Assédio Moral

Também conhecido como bullying, violência moral, mobbing, psicoterrorismo ou
terror psicológico no trabalho, o assédio moral é um conjunto de comportamentos que estabelece um cerco ao assediado encerrando um conflito (real ou ilusório) em que o assediador acredita existir, exercendo assim um domínio e subjugando a vontade do outro à sua.

O assédio raramente se inicia de forma agressiva e violenta, mas geralmente
começa com pequenas mentiras e desrespeitos “inocentes” contra o assediado
e, sua passividade se torna alimento para o narcisismo do assediador que ao
perceber que sua investida teve aderência, engendra um processo de
manipulação contínuo e persistente de subjugação do assediado por meio de
palavras, símbolos e sinais.

Características de Assédio Moral

As características essenciais para a caracterização do assédio moral são:

• Intencionalidade: trata-se de um sistema perverso, pois objetiva
conscientemente minar os divergentes às posições do assediador;

• Direcionalidade: a canalização a um indivíduo ou grupo é fundamental
para a caracterização do assédio moral, pois nele consiste na
desigualdade de tratamento;

• Repetitividade: tem caráter processual e não de apenas uma ação
pontual;

• Duração: não há tempo definido para se caracterizar o assédio moral,
porém sua característica está atrelada a um lapso temporal suficiente
para a existência da humilhação;

• Regularidade: ações esporádicas e distantes entre si podem
desconfigurar o caráter do assédio.

Impactos do Assédio Moral

Para a organização, o assédio moral gera absenteísmo, baixa produtividade,
turnover e custos de reposição, redução da produtividade e desempenho, perda
de equipamento e produção, queda na qualidade de trabalho, erros e acidentes,
perda de habilidade, enfraquecimento da adesão ao projeto organizacional,
aposentadoria prematura, redução da atratividade de talentos no mercado em
virtude da exposição negativa do nome da organização, eventual redução do
valor da marca. Além de resultar em perdas financeiras diretas em indenizações
por danos morais.

Porém, o maior impacto para a empresa se dá no clima organizacional.

Caso o assédio moral não seja combatido, pois com ele surge a hipocrisia ao se pregar a empatia e o contentamento geral num ambiente no qual predominam o cinismo, o sarcasmo,a negação dos afetos, a competição e indiferença em relação ao outro.

Este ambiente fomentará em seus profissionais a “bravura” na busca pelo
cumprimento de metas, no inovar em suas organizações, no enfrentamento de
crises institucionais e de mercado, entre outros “desafios” no dia a dia nas
organizações.

Com isso, em nome da meta os assediadores são valorizados por serem ágeis, serem abertos a mudanças a curto prazo, dependerem cada vez menos de leis e procedimentos formais e, sobretudo, são impelidos a instrumentalizarem aqueles que são mais vulneráveis.

Para o assediador, pode ensejar punições administrativas, chegando a
demissão por justa causa, além de responsabilização cível por danos morais
causados ao assediado, bem como pode sofrer sanções penais.

Já para o assediado, há implicações físicas e psíquicas, afetando todas as
circunstâncias de sua vida, seja no local de trabalho ou na vida familiar.

Um estudo constatou que das vítimas de assédio moral 80% (oitenta por cento)
sofreram dores generalizadas, 45% (quarenta e cinco por cento) apresentaram
aumento de pressão arterial, mais de 60% (sessenta por cento) queixavam-se
das palpitações e tremores e 40% (quarenta por cento) sofreram redução da
libido.

Os impactos individuais oriundos da ocorrência de assédio são difíceis de
mensurar, mas além de problemas de ordem física e/ou psíquica, há
desestruturação da família e da carreira, e até mesmo, em alguns casos, a
vítima podendo chegar ao extremo de uma busca por suicídio para alivio da
dor.

As formas de Assédio Moral

Marie France Hirigoyen, pesquisadora francesa, psiquiatra e psicanalista, define assédio moral como toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se,
sobretudo por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam
trazer danos a personalidade, a dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, existindo quatro formas, a saber:

• Deterioração proposital das condições de trabalho: nesta o
assediador busca denegrir o assediado por meio do ambiente a sua volta,
inviabilizando condições básicas de trabalho, enfraquecendo assim a
resistência do seu “alvo”. Esse tipo de assédio representa 43% de
ocorrência;

• Isolamento e recusa de comunicação: é a famosa “geladeira” quando
o assediador humilha silenciosamente o profissional, afetando
diretamente a sua autoestima ao se ver isolado e sem qualquer suporte
de seu superior ou colegas de trabalho, representando 49% de
frequência;

• Atentado contra a dignidade: 68% dos assediados sofreram com esse
tipo de assédio, com olhares, sinais ou mesmo comentários “soltos” o
assediador ataca diretamente a dignidade do assediado, tentando assim
enfraquecer psicologicamente o assediado até uma despersonalização;

• Violência verbal, física ou sexual: este nada sutil, ocorre 70% dos casos
de assédio, porém geralmente praticado entre quatro paredes, até mesmo
por saber que outros podem identificar facilmente seu comportamento
como assédio, o assediador se refugia no ato da investida.

Corporativismo

O assédio no ambiente de trabalho é um fenômeno multidimensional. Um levantamento de uma pesquisa na França apresentou que 58% dos casos de assédio advêm da hierarquia, 29% dos casos o assédio vem de diversas pessoas (colegas e superiores), com 12% o assédio vem de colegas e 1% dos casos de um subordinado.

O assédio moral impõe a existência de hierarquia entre o assediador e
assediado, mas essa violência pode ser praticada entre colegas, ou ainda, por
subordinados quando estes utilizam a estrutura organizacional para obrigar o
superior a fazer algo de seu interesse, este fenômeno é denominado
“Corporativismo”.

Há distinção entre “corporativismo estatal” e “corporativismo social”. O primeiro se refere a instituições corporativas criadas pelo estado. O corporativismo social, por outro lado, é supostamente aquele que emerge mais espontaneamente da mobilização “de baixo para cima”, com o uso de poder organicista que busca prioritariamente o bem-estar dos grupos sobre o bem-estar dos indivíduos.

O que não é assédio

Tão importante quanto a possibilidade de entender ou qualificar o assédio no ambiente de trabalho é a compreensão daquilo que não é. Nem todas as pessoas que se dizem assediadas o são de fato.

Os conflitos que os grupos vivem no ambiente de trabalho e que fazem parte
deste universo não caracterizam, necessariamente, assédio. O assédio moral
caracteriza-se antes de tudo pela repetição, não podendo ser consideradas
como assédio moral no ambiente de trabalho: situações estressantes ou o
estresse gerado por situações de conflito, conflitos explicitados, gestão
despótica, agressões pontuais, más condições de trabalho ou ainda imposições
profissionais.

 

 

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